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… Nada Ser

 

Nada sou!
E contudo, sou.

Sou, porque tu és,
porque fazes com que seja.

Vamos dar asas ao desejo.
Explorar o lugar onde o tempo pára
ou atravessar a pálida névoa
no cosmos das águas tranquilas,
onde reside o verbo,
onde o espírito se aquece
e a alma se refresca.

Vamos dar asas ao desejo.
Mergulhar no impulso do inúmero
ou calcorrear as cascatas do céu
no infindo das terras sagradas,
onde tudo é harmonia,
onde se vê o incomensurável
e se sente o improvável.

Sim, vamos dar asas ao desejo!
Deixar que ele nos leve à génese do ser
e ser qualquer nudez na fluidez do nada.

Se nada sou
e mesmo assim sou,
deixa-me Nada permanecer
e contigo apenas Ser.

in Interlúdios da Certeza

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Cartas Frente ao Mar (XIV)

Minha Querida,

há momentos em que o poema do Mar Céu mais me chama.
Quando as orlas das vagas são crinas de luz que anunciam o amanhecer.
É nesse apelo que sinto a sua vibração. No silêncio do horizonte índigo.

Contudo, as mesmas águas que tecem o nosso amor são a razão da distância, numa razão que, simultaneamente, me fortalece e enlouquece.

É nesta condição que percorro as areias da fronteira, aspirando a transfiguração que possa levar o meu vibrato até si, expressando o Verbo que me dilacera neste tempo de ausência.
Percorro os grãos dourados suspirando pelas névoas matinais, onde raios de luz moldam a sua face.
Só assim é que, num ténue e incessante arrepio que me arrebata em ondas de paixão e nostalgias, os seus lábios me tocam.

Frente ao Mar, as saudades são uma certeza!
No entanto, também afastam os ventos da tristeza dando som à voz do coração, onde me preencho em lembrança.

Mas serão as minhas cartas suficientes para acalmar as águas revoltas?

Por isso, é na praia que solto as lágrimas!
Para a união do desejo, para a redenção do amor que renasce no embalo das ondas.
Sim. É na praia que liberto as lágrimas!
Porque as pérolas são necessárias à beleza.

Enquanto houver ondas, o meu amor será constante.
E nos dias em que o mar se reveste jade, mais brilha a sua recordação em mim.

Um beijo terno, doce alma

V.


I

 

árvore!
horizonte!
consciência!
profundo!

É nesse ondular que
se cruzam as múltiplas dimensões.

sopros caídos, acenos escritos.

 


Cartas frente ao Mar (XIII)

Minha Querida,

Talvez tenha razão quando diz que a distância nos protege. Talvez?

Dois oceanos persistem entre nós!
Duas vastidões de vida e tempo que perfazem o revestimento da distância. No entanto, é a distância que sustenta o meu desejo.

Eis porque a sua presença na minha existência e a sua lembrança no meu coração são primordiais. Por elas chegam até mim as aragens quentes do seu corpo em universo.

E a consciência da entrega plena emerge revigorada.
Só falta reunir um plano existencial já que todas as noites fundo-me na sua divindade, alimentando a chama viva do amor.

Não sei o que amanhã trará, mas sei que o nosso Ser está inscrito no tempo.
Um dia essa distância irá desaparecer. Afinal, todo o oceano se cruza, todas as águas são correntes a percorrer.
Estenda os braços e juntos faremos a ponte!

Contemplo o som laranja do entardecer que se funde no azul denso do horizonte.
Todo esse momento é um suspiro, uma passagem para o sonho, para o reencontro dos corpos.

Quero-a como essência integral. Como divindade e mulher!

Por isso, navegarei as ondas tempo sem as provocar, embalado no ritmo da paixão.
O importante é senti-la aí. Assim, será aqui. Em mim!

Um beijo terno, doce alma

V.


Cartas frente ao Mar (XII)

Minha Querida,

Talvez seja devido às brisas oceânicas que me envolvem que me sinto mais amado.

O verde das paisagens – tão intensamente choradas – abertas à varanda chegou até mim. Assim como a pura crina branca que galopava livre, adornando o dorso das montanhas nas manhãs em Sol breve, no Inverno.

Há lembranças que passam a ser nossas!

Entrego-me aos sons do silêncio para ser no sentir das suas palavras, pois são palavras que adoçam a distância suavizando a saudade.
E o meu olhar regressa ao mar por saber que o querer vive para lá do horizonte.

Houve um renascer nas águas que fazem este universo que nos banha.
No jardim das constelações, deu-se o milagre duma nova energia, duma nova vida.

Sinto uma nova flor de diamante na noite. E é durante o manto denso que venho sentir o horizonte das águas.
Em breves instantes, sonhados, é certo, crepitam milhões de faúlhas prateadas.
Presentes do luar! Embevecidos com a singularidade a que se assiste: a união entre as águas e o céu, onde as mais imaculadas estrelas cadentes descaem em desejo.

Nesse horizonte, também eu me rendo ao Amor. E pergunto, esperançoso: Posso ser luz em seu corpo?

Querida, há lembranças que deixam de estar sós! E amanhãs que virão.
Eu? Sonho com um amanhã unido a, e em, si.

Até lá, todos os dias, a sua recordação renasce no meu coração.

Um beijo terno, doce alma

V.


Calendário


Tempo…fermo, originally uploaded by mareluna_99.
 

marca-se o tempo da existência
na existência em tempo.

mas o tempo tem uma existência
diferente da existência no tempo.

do Tempo brotam os tempos em vida,
da Existência surgem as existências em Ser.

Tempo?
Existência?
águas no mesmo lago de luz.

e, no fluir do In-finito, tudo é passagem!

talvez seja mais um tempo para a consciência intemporal?

talvez seja aniversário?

 


Cartas frente ao mar (XI)

Minha Querida,

avizinham-se novos tempos.

Há um distanciamento nas auras singulares que revela a partida do horizonte.
Apesar da luz que as conforta, as águas estão diferentes.

Sempre soube que existem luzes intemporais que se reencontram no temporário que faz as diferentes vidas, voluntariamente experimentadas.
É precisamente o Ser na entidade cósmica da Luz que nos impele a seguir.

Já o afirmei antes, reafirmo-o aqui: é nos reencontros que mais vibro.
Não tenho qualquer dúvida que é a (re)iniciação temporal que leva ao assumir na consciência universal. Não há plenitude sem aprendizagens nos tempos.

Nem todos temos os mesmos instantes de partida, mas mantemos o elo que nos faz no contínuo.
Haverá sempre cristalinos que nos levem a este mar e ventos que multipliquem os beijos aqui trocados.

Contemplo abóbada celeste do meu coração.
Os diamantes azuis que aí pulsam jamais deixarão que seja lembrança.
Será sempre essência viva em mim.

Despeço-me destas águas sem momentos de tristeza, pois o meu eu é gratidão.
Mas deixo este desejo:
Aceite as carícias da brisa!

Aguardo-a em novos mares azuis celestes, onde os cânticos do silêncio chamam.

Um beijo terno, doce alma

V.