as nuvens são hieróglifos magnéticos
suspensos no tempo azul.
É em sânscrito que se escrevem as enseadas!
as nuvens são hieróglifos magnéticos
suspensos no tempo azul.
É em sânscrito que se escrevem as enseadas!
Minha Querida,
Sempre vivi o presente. Intensamente. Sem olhar para o amanhã!
Faço-o porque a vida é uma dádiva que deve ser sentida. Porque só se vive o presente. E porque esse viver deve ser calmo. Dessa maneira, para além de se saborear tamanha bênção, ainda há tempo para agradecer o milagre da existência.
Acredita, pois, que para viver intensamente não é preciso andar a correr. Quem to diz é uno com o movimento. Sabe, naturalmente, o quão difícil é consegui-lo. Assim, vivamos o presente e aceitemos o que o futuro nos trará.
Ora, isto não quer dizer que não se possa sonhar!
Pelo contrário, eu necessito que sonhes! Necessito que continues a chamar por mim. Necessito de sentir que as chamas deste fogo que nos faz são intemporais e reais.
As ondas da tua paixão atingiram-me violentamente. Em todos os meus tempos. Só agora começo a fundir-me em tal universo de emoção, só agora toda a minha linha se acalma. Assumo a dimensão da minha ligação a ti e percebo o quão antiga é a nossa história. Ou histórias?
Mas o querer é muito e perguntas quantas distâncias nos fazem?
Parecem imensas. E, com os oceanos que nos separam, intransponíveis!
Reflicto na exiguidade que sou no MULTIVERSO. Sei que não serei o mesmo depois de ti. Assim, humildemente, agradeço sentir-te existência e, mais ainda, o sermos no mesmo plano existencial.
E liberto-te! Consciente que o amor que te tenho deve ser independente. Consciente que não és um cometa, mas uma estrela e que a tua luz e o teu calor estarão sempre comigo.
Mas também pergunto: quantas distâncias realmente nos fazem?
Só uma! Eu sei que faz grande diferença e que dói muito. Mas, e antes? Não foi a própria ausência um obstáculo? Não foi o tempo separação? E hoje, ainda o são?
O que nos levou ao mesmo ponto no tempo, fê-lo por alguma razão. Há desígnios maiores do que nós. Confiemos no que o MULTIVERSO pretende e entreguemo-nos, sem reservas, ao seu abraço.
Por isso, desculpa-me se me agarro às lágrimas do tempo. É nessa água – fonte da esperança – que te envio o coração. Porque acredito e anseio pelo consumar em ti!
Desculpa-me, sou, integralmente, emoção!
Sempre,
V.
duas distintas entidades.
um grão de tempo,
uma união inteira …
uma lua em saudades.
duas lágrimas,
um pleno em coração …
Minha Querida,
Encurvo-me perante o silêncio do mar.
Olho para o horizonte e entrego-me à linha do destino.
Por vezes, a geografia é uma esquina escondida. Pensei que desta não o fosse.
Mas a distancia existe. Eu, aqui! Tu, aí!
Talvez um dia nos seja favorável. Talvez?
Penso nas tuas palavras. Permanentemente!
Dizes que há demasiado sentir nas minhas linhas.
É natural! Faço amor com as palavras. É por elas que expresso o meu desejo e o meu querer.
Faço-o com toda a plenitude da minha livre vontade. Faço-o porque me sinto correspondido.
Não posso ansiar pelo teu abraço? Ou por descansar no teu peito?
Nem vale a pena dizer que não porque não o consigo impedir.
Sim. Eu sei que as circunstâncias são distintas. Mas sê-lo-ão para sempre? E mesmo que assim aconteça quer isso dizer que não sentimos o que sentimos? Quer isso dizer que os momentos que temos não foram intensamente sentidos?
Ah! Há alturas em que apenas nós somos. Tudo o resto jorra da nossa origem!
Contudo, também há, realmente, a possibilidade de abrandar.
Se te for necessário, jamais imporei a minha vontade. Mas as cores não voltarão a ser as mesmas nem nós voltaremos a ser iguais.
O que nos faz, toca-nos profundamente. Tanto que abala as colunas da existência pelo reconhecimento do que já houve. É o antigo que chama por nós! E eu ouço esse canto.
Falaste-me em lágrimas no chão. Recordas?
Respondi-te que as tuas lágrimas tinham era caído no meu coração, onde as tinha recebido e guardado por serem manifestações do teu amor. Recordas?
Pois as tuas lágrimas já são um oceano de sentir no meu coração. E o tempo fará delas um universo. Porque eu vou ama-las e acarinha-las. Porque nelas também quero ser.
Só assim criaremos o, e no, MULTIVERSO.
Encurvo-me perante o silêncio do mar.
Venho aqui à procura dos afagos do vento. É por eles que sinto os teus beijos.
E peço-lhes, humildemente, que levem os meus até ti.
Sempre,
V.
quantos malmequeres flutuam no vão do desejo?
quantas amarras suspensas no tempo?
são nostalgias do futuro que te preenchem.
mas sabes-te perdido nos tons de azul …
Acontece poesia em ti
sempre que olhas,
afirmando uma vida pulsante,
magnífica
como
o cintilar das Estrelas no céu,
o resplendor brilhante do Sol
nos teus doces
e meigos olhos.
Acontece poesia em ti
sempre que ris,
criando umas curvas no rosto
sensuais
como
os campos de searas ao vento,
as ondas nas águas de um lago
ao sabor da quente
e harmoniosa aragem do Verão.
Acontece poesia em ti
sempre que andas,
alimentando o nascer de sentimentos
sinceros
como
o delicado desabrochar de uma flor,
o despontar do amanhecer da vida
no enternecido ser
do meu coração.
Assim,
quando
eternamente te penso,
te sinto,
te vivo,
por fim
acontece também
poesia em mim.
Ana e os Sóis Interiores
Deixei a vida de escravo para ir trabalhar para o campo.
Foi uma decisão tomada num impulso momentâneo. Que surpreendeu toda a gente! Era um dos que tinham capacidade produtiva, sendo, por isso, considerado valioso. Isto apesar de sempre ter sido sonhador. Apenas a minha mulher me apoiou.
Mas os sonhos concretizam-se quando a semente germina. E o futuro vinha aí. Uma filha aproximava-se!
Alguns amigos, bastante curiosos, perguntavam-me:
- Que vais fazer para o campo? Nada percebes de agricultura.
E eu sempre respondia:
- Vou plantar dentes-de-leão azuis! Vou crescer vida! Vou ser feliz!
- Dentes-de-leão azuis!? – Retorquiam – Mas estás doido? Isso não existe! Ao menos, planta algo que te dê pão.
Mas eu não ouvi. Limitei-me a persistir.
Foi num pequeno planalto, protegido pelos braços dos montes e que logo pela manhã era acarinhado pelos raios de luz, que decidimos semear os nossos sonhos. E instalamo-nos numa pequena casinha de madeira.
Passados uns meses, as cegonhas cor-de-rosa chegaram. A Ana nasceu e a nossa família cresceu. Para agradecer a bênção recebida, plantamos uma romãzeira ao lado da casa. Aí, mais tarde, colocar-se-ia um baloiço para a nossa filha voar.
A chegada da Ana renovou a nossa esperança e reforçou o carinho com que tratávamos a terra.
A nossa filha foi crescendo e amava a terra. Tinha uma ligação especial com a romãzeira, que tratava por irmã. Deliciava-se com as nossas histórias e vibrava com os dentes-de-leão azuis.
Mas o tempo foi passando e nada de dentes-de-leão. Muito menos azuis.
Avizinhavam-se novas mudanças e decisões eram necessárias. Numa noite, após o jantar, disse à minha mulher:
- Querida, a nossa filha vai para a escola e necessitará de mais apoio e de material escolar. Até hoje mantivemos o terreno dos dentes-de-leão livre, mas se calhar chegou a hora de isso mudar. Que achas?
A Ana, que ouvia a conversa, agarrou-nos as mãos e, levando-nos até ao campo vazio, disse:
- Pai, Mãe, não desistam. Aqui haverá sóis interiores! – e libertou, sobre o lugar dos nossos sonhos, as lágrimas que tinha no rosto.
Comovidos, pegamos na nossa filha e, sem nada dizer, confortamo-la no nosso abraço e, fomos dormir.
Talvez fosse mero acaso, talvez fosse pelas lágrimas. Mas, no dia seguinte, os dentes-de-leão floriram azuis.
Ah! Eram qualquer coisa de fantástico. De noite, faziam a aurora sorrir. De dia, entoavam as melodias do vento.
Tinham características especiais. Pois nascidos do amor, quando colhidos com ternura, libertavam o pólen da luz e o calor da renovação. Eram, tal como a Ana havia dito, autênticos sóis interiores.
Em pouco tempo, éramos notícia internacional. E eram tantas, as pessoas que os queriam ver e comprar.
No entanto, a Ana dizia:
- Não são para vender. São para oferecer aos que necessitam de sonhos.

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

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