Minha Querida,
Que lhe hei-de dizer?
O instante da criação deixa de o ser quando o é.
É, por isso, algo necessariamente anterior.
Para o poeta,
em cada letra há um portal,
em cada palavra um universo.
Já num livro, apenas há a expressão do sentir.
O verbo original é a representação do sentimento, não concorda?
Talvez o Poeta almeje uma singularidade – um simultâneo retorno e recordar – que o devolva não à sua criação, mas ao momento em que foi originado.
E, embora frágeis tentativas de reprodução da majestade do silêncio ou do esplendor da luz, aí sim, os poemas serão a figuração dos sons.
Quanto ao português, é uma língua – prefiro o termo expressão – possuidora de uma dimensão maior. A melodia que emana da sua pronunciação é distinta. Diria até única.
Para mim, se mo permite, é equiparável a uma expressão litúrgica dos cosmos.
Por fim, o indizível encontra-se no colectivo humano.
Se víssemos a espécie como um todo, a harmonia seria uma realidade.
Sólon sabia-o! Infelizmente, dele já restam poucos vestígios.
Deixo-lhe um beijo, doce alma.
V.



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