Arquivo de Setembro 21st, 2008

Cartas frente ao Mar

Minha Querida,

Que lhe hei-de dizer?

O instante da criação deixa de o ser quando o é.
É, por isso, algo necessariamente anterior.

Para o poeta,
em cada letra há um portal,
em cada palavra um universo.
Já num livro, apenas há a expressão do sentir.

O verbo original é a representação do sentimento, não concorda?

Talvez o Poeta almeje uma singularidade – um simultâneo retorno e recordar – que o devolva não à sua criação, mas ao momento em que foi originado.

E, embora frágeis tentativas de reprodução da majestade do silêncio ou do esplendor da luz, aí sim, os poemas serão a figuração dos sons.

Quanto ao português, é uma língua – prefiro o termo expressão – possuidora de uma dimensão maior. A melodia que emana da sua pronunciação é distinta. Diria até única.
Para mim, se mo permite, é equiparável a uma expressão litúrgica dos cosmos.

Por fim, o indizível encontra-se no colectivo humano.
Se víssemos a espécie como um todo, a harmonia seria uma realidade.
Sólon sabia-o! Infelizmente, dele já restam poucos vestígios.

Deixo-lhe um beijo, doce alma.

V.


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Os textos e poemas publicados neste blog são parte nos seguintes livros: Interioridades da Luz; Cartas frente ao Mar; Comentários na face da Noite.

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